No palco, como no meu quarto

Essa semana me veio um pensamento que aflige 100 em cada 100 músicos que eu conheço. Como entrar no palco e tocar tão bem quanto tocamos no nosso quarto? Imagino que você se identificou com essa questão.

Esse pensamento me ocorreu por duas situações contrastantes que vivi recentemente. Primeiro, tive uma gravação de DVD, que por minha função de baixista, arranjador e diretor musical, era natural que não fosse uma atividade simples. Verificar se tudo estava correndo bem, se todos estava tocando no metrônomo, se todas as “obrigações” dos arranjos estavam soando direito, solos, interpretação, áudio,… e ainda tocar baixo,… não preciso falar mais nada. Segundo, já de volta aos Estados Unidos, fui a um bar reencontrar os amigos. Depois de muita conversa para botar as coisas em dia, fui dar uma canja. Toquei como se estivesse no meu quarto. Porque esses extremos existem em nossas vidas?

De início, aviso que não tenho a resposta para essa pergunta. Tenho pensamentos e ações, que funcionam para mim e que continuo tentando melhorar a cada nova apresentação/gravação. Possivelmente alguns de vocês se identificarão com minhas ideias e poderão aplicá-las em suas vidas. Outros encontrarão táticas diferentes que darão o mesmo (ou até melhor) resultado.

Posso dividir os motivos que atrapalham nosso rendimento musical em dois principais: relaxamento e conexão musical.

O relaxamento está intimamente ligado ao tamanho da responsabilidade do que precisamos fazer e o nível de confiança em nós mesmo. É aquela estória… se cometermos um erro em nosso quarto, não causará nenhum problema ou constrangimento. Se não causa problemas, não temos medo de errar. Se não temos medo de errar, ficamos relaxados. A mesma relação se dá com a confiança. Se é algo que nossa técnica tem “bala na agulha” de sobra ou que já estudamos bastante, temos confiança. Se temos confiança, não temos medo de errar. E assim vai. O difícil é não ter medo de errar em um teatro lotado.

Hamilton Pinheiro Show AbracePara resolver essas questões eu uso algumas táticas.

  • Os ensaios também servem para adquirir confiança. No ensaio eu toco como se fosse no palco. Se estou tocando bem em um, posso confiar que tocarei bem no outro.
  • Problemas que eu verifico nos ensaios são resolvidos em casa. Caso haja uma passagem difícil tecnicamente, um trecho que preciso me concentrar mais para ler, uma harmonia mais complicada para improvisar,… eu estudo para no ensaio seguinte já estar com isso resolvido.
  • O estudo técnico é fundamental para a confiança, principalmente para passagens rápidas. Se você está improvisando e tenta por três vezes fazer uma frase sem sucesso, não tentará a quarta. Muitos músicos estudam 10 a 30% acima do andamento que precisam tocar para garantir que se sairão bem.

Uma vez que verifiquei nos ensaios que estou preparado para tocar bem e que a técnica está em dia para responder ao que o repertório me exige, no palco eu acrescento um equilíbrio entre concentração e relaxamento. Preciso estar concentrado o suficiente para tocar certo e relaxado o suficiente para tocar bem. Tem que haver esse equilíbrio, porque se concentrar demais fico tenso e erro, se relaxar demais fico displicente e erro.

A conexão musical se dá quando conseguimos “entrar” na música por inteiro. Quando percebemos que nós e aquele som que está sendo produzido somos uma coisa só. Quando conseguimos perceber como cada nota que tocamos se relaciona com o todo da música. O problema é que essa conexão é frágil e pode ser atrapalhada por qualquer coisa.

Quem nunca experienciou estar “vivendo” dentro daquele som, onde tudo estava perfeito, emoções correndo por todo corpo e uma notinha errada quebra toda a sensação. Aí a gente fica puto… que droga! Estava tudo tão certo… foi só por meio tom, mas ficou bem feio. Deveria ter prestado mais atenção… O tempo que você gastou para ler essas frases nesse texto é o tempo em você ficou desconectado da música. Durante todo esse período, você só tocou notas. Não fez música. Só quando conseguiu se livrar desses pensamentos é que pôde se conectar novamente (se é que conseguiu antes da música acabar).

Como resolver isso? É uma particularidade que cada um tem que descobrir. Para mim, é cantar. Quando começo a cantar as notas junto com o que toco, consigo afastar rapidamente todos os pensamentos e voltar a me conectar com a música. Tem gente que se concentra no som que está ouvindo. Outros olham para o ambiente para sair da cabeça e conectar com o mundo externo. Outros combinam esses dois.

Qual a sua tática? O que você faz para sair da bolha de pensamentos que sua cabeça cria e voltar para a música que está soando? Escreva aqui embaixo. Vou adorar ler o que você tem a dizer sobre isso.

Abraço e até a próxima.

HP

  • Cleudson Assis

    Show de bola! Vou guardar a frase “Você só tocou notas. Não fez música”. Parabéns Hamilton!!!

    • hpbass

      Valeu, Cleudson. Fico feliz que gostou.